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sábado, 30 de março de 2013

De uma razão para os poemas



A verdadeira razão dos poemas

Dizem que os poetas -e, por extensão, os escritores- são movidos pela intensidade da dor que sentem ao escrever.Eu concordo.Sem a melancolia, a tristeza, os mais belos poemas do mundo seriam meros versos varridos pelo tempo. Passados, esquecidos.
Há, porém, dois tipos de tristeza no coração do escritor- bem sei eu, posto que o sou. A primeira é a mais conhecida, aguda tristeza que dói nos olhos, garganta, coração...Aquela que formiga os dedos e atrai o lápis à mão.A tristeza que nos impele a escrever, transpassar a dor e tornarmo-nos imortais, ou simplesmente admirados por alguns amigos, que nem toda dor é tão intensa e nem todo escrito é eterno.
A segunda, talvez menos conhecida, entretanto não menos real , é a dor que nos faz ler. Grave, profunda, devasta o peito, deixando-o vazio. Não derrama lágrimas, é muda e soturna, fria. É quando sentem tal tristeza, que os escritores mudam de lado. Procuram nas palavras alheias- ou nas próprias, quem sabe?-um conforto. Palavras que definam o que acontece, no momento em que os dedos falham e o lápis desaparece.
            Nesses momentos em que a dor não cria, apagados e meramente mortais, a razão da escrita se mostra, nua e clara. Não, nós não escrevemos para nos expressar.Não escrevemos para os leitores, nem ao menos para virar imortais.
            Escrevemos para nós mesmos, para quando precisarmos beber dessa fonte que jorra do peito de cada poeta, escritor,compositor.
E as palavras nos servem, doces, amargas, em todos os momentos e em cada tipo de tristeza...infinitamente.

terça-feira, 10 de maio de 2011

De dormir ou não dormir

É tarde, e eu devo acordar cedo amanhã.
Mas um ceerto trabalho da faculdade me chama, no entanto, cada vez que me proponho a faze-lo maus olhos se fecham e embaralham as letras e a concentração se esvai.
Se ao menos fosse um trabalho inútil de um professor qualquer, eu o terminaria de vez, mas o assunto é interessante e o professor competente...

Devo dormir, mas chove.
E o céu está de novo naquele tom de vermelho que só a madrugada e a chuva trazem,
e ele sabe que esse tom de vermelho me faz suspirar.
E chove, e eu adoro a sinfonia da chuva, e os cheiros da chuva no silencio da noite.

E a casa inteira dorme, mas tudo ao meu redor respira as gotas geladas de som.

Um homem caminha devagar na chuva, e eu não sei de onde ele vem nem pra onde vai, mas como eu queria ser como ele.

Andar entre as gotas pesadas, e leve, e rápidas e desprendidas de chuva que se despencam lá do alto só pelo gosto de cair e correr.

Mas a rua é longa e o homem passou.
E a noite passa.
E a chuva passa.

E eu não quero perder o som da chuva, e o cheiro da chuva, então eu fico.

Sem coragem de dormir, sem coragem de trabalhar, tentando morder o ar que se condensa ao meu redor, mas ele é amargo e azedo e doce e meu lábios não o compreendem...

Então eu escrevo.
Escrevo pra perdurar a chuva e prender o momento em algum lugar,
e pra me impedir de dormir,
sem ter totalmente que acordar.

Então eu me deixo afogar pelo céu vermelho,
e me vou com a chuva que se vai
e minha força se esvai....
... e o sono pede passagem...
..........e a chuva passou....................

terça-feira, 26 de abril de 2011

De uma chuva de suavidade


E hoje que eu acordei cedo
eu, desperta, olhei pro mundo

E hoje que não precisei sair
eu, grata, olhei pro céu

E hoje que o céu desabou
eu, seca, olhei pra chuva

E hoje que o vento soprou
eu, brisa, olhei pras folhas

E hoje que todo o resto se calou
eu, muda, olhei pra mim.

Monnique São Paio

sábado, 25 de dezembro de 2010

De desejos de Natal


Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel...
E muito carinho meu.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

De ansiedade...


"São caminhos não traçados que, súbito, desabrocham diante de nós
E nos pedem confiança, e serenidade, e firmeza
E nos pedem flexibilidade, e calma, e certeza


É a vida que se desenrola e vai e vai
E sem pedir licença nos transforma e nos carrega
Astronave de Toquinho
Que quase não podemos pilotar


Mas o desejo de tomar em mãos o controle se divide
Com a vontade de ver aonde tudo vai chegar
E a confiança n'Aquele que tem o verdadeiro controle é maior
E mas tranquilizadora.


Quero seguir a correnteza,
Na certeza de que uma mão condutora
Não me deixará desaguar em uma cascata
Cachoeira, queda intransponível.

Mas, ainda assim, com a força
De quem carrega o remo e a vontade
Sempre à altura dos olhos,
Ao alcance das mãos."

Nique Esteves